RAÇAS QUE CONSTITUÍRAM O POVO BRASILEIRO – O MESTIÇO... *

RAÇAS QUE CONSTITUÍRAM O POVO BRASILEIRO O MESTIÇO 


 


No estudo dos povos que formaram a atual nação brasileira o primeiro lugar há de ser dado ao português.  Não é que ele só por si, como supuseram sempre os retóricos das velhas crenças, tenha constituído o nosso presente estado e tenha sido o fator único de nossa civilização. Este modo de pensar arbitrário e incorreto é um dos muitos erros que devo atacar de frente. O lugar de honra deve ser dado ao português; porque ele, sem ser o único, é o principal agente de nossa cultura. Não vejo que seja necessário, neste ponto, impertinentemente repetir sobre a etnografia das populações da Península Hispânica aquilo que sobre ela já, por muitas vezes, tem sido bem dito. Bastam poucas palavras. Aceitando a aparição do homem sobre a Terra na época terciária, no período do eoceno, segundo os mais ousados antropologistas, nada se sabe de positivo sobre os habitantes pré-históricos da Península Ibérica. Têm-se de admitir ali populações autóctones, que viriam prolongando-se pelos períodos geológicos seguintes – mioceno, plioceno, pós-plioceno. Neste último pisa-se um terreno mais sólido, e fatos mais averiguados se antolham ao observador. Passa-se às idades da pedra lascada e polida, e chega-se à idade dos metais. Então já muitas imigrações tinham por certo vindo sobrepor-se aos primitivos autóctones, e entra-se plenamente na fase quase histórica dos povos precursores dos semitas e arianos, raças metalúrgicas, impropriamente denominadas turanas e mais acertadamente uralo-altaicas. Os iberos, ao que se presume, pertencem a esta família. Vieram depois os lígures, os fenícios, os celtas; formaram-se os celtiberos; chegaram os cartagineses; mais tarde os romanos; e, finalmente, os suevos, os godos e os árabes. A população da Península descende, como se vê, de uma origem variadíssima, onde entraram os primitivos indígenas, os uralo-altaicos, os semitas e os arianos. As quatro principais raças humanas estão ali representadas. O português é um resultado complicadíssimo da história; desmembrado, além de tudo, da comunhão espanhola, tem sempre tendido a caracterizar-se à parte. A ousadia de seus marinheiros e o livro dos Lusíadas foram os mais valentes operários nessa obra de cenogênese nacional. No século mais brilhante de sua história, veio até as nossas plagas tomar aos Tupis esta vasta região, onde fundou uma nacionalidade, que deve ser no futuro a representante, até certo ponto, de suas tradições. Portugal oferece um espetáculo singular na história: o século de sua florescência foi igualmente o século de seu desmoronamento. Duzentos anos lhe bastaram para aumentar e fortificar-se; em 1500 apresenta-se opulento, trabalha na evolução geral da humanidade; dita aí a sua palavra; recolhe-se e cai. O Brasil não chegou a fruir as vantagens da grandeza de seus pais. Colonizado muito depois de descoberto, quando o século já ia em meio, este belo país assistiu bem cedo ao cativeiro da mãe-pátria. Franceses, ingleses, holandeses e até espanhóis disputaram-no. A colônia teve de sustentar grandes lutas para conservar-se fiel à metrópole. Estes fatos retardaram-lhe o desenvolvimento.

Qual era, entretanto, nesse tempo o estado intelectual de Portugal? – Bem lisonjeiro. Tal deve ser a resposta. Um país que tinha Gil Vicente, Camões, Cristóvão Falcão, João de Barros, Sá de Miranda e Ferreira, atravessava uma fase brilhante do pensamento. Os colonos portugueses para aqui transportados vinham de posse de uma cultura adiantada. Por que motivo, pois, não dirigiram a colonização mais sabiamente, aproveitando os índios, adaptando-os a si? Duas causas fornecem a explicação do fenômeno: a índole do caboclo, refratária à cultura, e a imperícia do governo da metrópole. Sabe-se que de João III em diante a nação começou a perder os largos estímulos, o povo a definhar, o jesuitismo a expandir-se e a carolice desenfreada a erguer o colo.

A Espanha espreitava de longe e no momento azado pôs a mão sobre a presa. Não se trata aqui de escrever a história exterior do Brasil, senão de indicar a traços rápidos as primeiras sementes do pensamento nacional.

Concebe-se facilmente que os portugueses não vieram para este país no primeiro século de sua descoberta em vastas levas para um território exíguo; passaram-se em pequenas porções a estabelecer-se isoladamente num território vastíssimo. Formaram-se por isso núcleos isolados, quase incomunicáveis, à vista das dificuldades de relações existentes então no país.

São Vicente, São Paulo, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e Maranhão foram os principais centros da população portuguesa no Brasil durante mais de duzentos anos.

Daí um certo caráter contraditório entre esses núcleos, que não vieram a formar outras tantas populações distintas em vida e tradições; porque os colonizadores, oriundos de um país exíguo e centralizado, pensavam pelo mesmo molde, e, por um fenômeno singular, as principais tribos selvagens brasileiras pertenciam a uma só raça e tinham a mesma intuição das coisas.

Os portugueses, quanto ao seu regímen mental, estavam numa fase monotéica alimentada pelo catolicismo; mas diluída, de um lado, por muitos resquícios fetichistas, e, de outro, pela confusão metafísica. Era no tempo transitório da Renascença e daReforma, época de renovamento, de que o velho reino não pôde tirar largos proventos. O regímen teocrático, ajudado pelos jesuítas, amordaçara a nação, que na América viu nos índios mais os hereges que deviam ser extirpados do que os braços que podiam ser aproveitados.

A consideração de ter o jesuíta se aliado ao índio contra o português e o negro, não tem valor contra fatos mais gerais. O português na América procedia de acordo com suas idéias, com sua intuição do mundo e da humanidade; e um tal modo de pensar era em grande parte de formação fanática e jesuítica. Se os padres da companhia, contradizendo-se, deixavam escravizar o negro e protegiam o índio, é que em seus cálculos eles sonhavam um império exclusivamente seu, estabelecido sobre o indígena. O inconsciente da história venceu-os; na luta pela existência o português suplantou o caboclo e o jesuíta. O negro serviu-lhe de arma e de apoio; tal o seu grande título histórico em o Novo Mundo.

Ao português devemos a colonização por uma raça européia, seu sangue e suas idéias, que nos prendem ao grande grupo de povos da civilização ocidental. Pertencente, porém, ao grêmio dos povos ibero-latinos, trouxe-nos igualmente seus prejuízos de toda casta, políticos, sociais, religiosos, econômicos, e tantos males crônicos que lavram n’alma daqueles povos.

Passemos aos indígenas. Existem já alguns trabalhos de valor sobre as populações selvagens brasileiras. Os escritos de Frederico Hartt, Batista Caetano, Ferreira Pena, Couto de Magalhães, José Veríssimo, Batista de Lacerda, Rodrigues Peixoto e Barbosa Rodrigues, lançam alguma luz sobre o estado intelectual dos Tupis-Guaranis. Serão aproveitadas neste livro para o estudo de suas antigüidades, poesia, danças, música e línguas. Sobre certas particularidades de seu viver de preferência devem ser ouvidos os velhos cronistas, e entre todos o Padre Ivo d’Evreux, o mais minucioso.

Eu acredito na origem poligenista do homem, defendida por Morton, Nott, Agassiz, Littré e Broca.

Parece-me um exagero, ditado por uma velha preocupação ortodoxa, reduzir todas as raças humanas a uma só origem avita primitiva.

A unidade das espécies vivas é um fato positivo, demonstrado desde Lamarck; elas porém não se elaboraram num centro único para dali emigrarem; surgiram por modificações espontâneas em vários pontos do globo.

É o que aconteceu com o homem; em mais de um ponto da terra o animal, seu precursor, chegou espontaneamente ao estado de produzi-lo.

Parece-me que nesta questão Vogt e Broca interpretam melhor o verdadeiro sentido do transformismo do que Haeckel.

As raças americanas são um produto do meio americano. Desde a época do megatério o homem tem sempre existido nesta parte do mundo. As nações aqui encontradas no tempo da descoberta não se devem, todavia, confundir com os homens das cavernas.

No próprio seio do continente formaram-se raças diversas, de maior ou menor energia intelectual, que reagiram umas sobre as outras.

A desastrada hipótese do Sr. Barbosa Rodrigues, que os faz provir dos escandinavos, e a de Varnhagen que os derivava dos cários, são tão justificáveis, como as daqueles que os supunham oriundos dos judeus, quando dispersos pelo mundo no século primeiro de Jesus.

Inaceitáveis são igualmente as hipóteses que os fazem vir da Ásia, da Oceania ou da África. À bibliomania emperradamente ortodoxa deve-se esse impertinente esforço para procurar parentescos aos americanos entre os antigos descendentes de Jafet, Sem e Tur; arianos, semitas e pretensos turanos têm sido chamados para ascendentes dos nossos indígenas.

Por que motivo o Velho Mundo havia de ter o privilégio de produzir tantas raças e o Novo Continente nenhuma? Os habitantes da América vieram, como se diz, da Europa ou da Ásia, e os destas regiões donde vieram? A dificuldade remove-se; mas não é resolvida.

Agassiz provou que as raças humanas distinguem-se entre si na mesma proporção em que se distinguem a fauna e a flora de sete ou oito centros diversos do mundo. Estes reinos de criação, como ele os chamou, ou reinos de aparição, na frase de Rialle, oferecem a singularidade de que os homens neles originados aproximam-se dos antropóides do respectivo habitat.

Os argumentos dos monogenistas contra o indigenismo dos povos americanos têm sido vitoriosamente combatidos. Não é este o lugar de entrar em miúdas considerações sobre os motivos que me levam a aceitar as conclusões da grande escola de Morton e Nott. Basta-me ponderar que os dois novos argumentos dos adversários são igualmente improcedentes. O primeiro é tirado da ausência n’América dos animais antropomorfos, gibão, orango, gorila, chimpanzé, considerados como os mais próximos parentes do homem, por descenderem de um antepassado usual. Este argumento é uma aplicação imponderada, torcendo-se-lhe o sentido, da doutrina darwiniana ao problema da origem dos americanos. Sabe-se que, se interpretado num sentido por Haeckel, o transformismo prende-se à teoria monogenista do homem, não é menos exato que mais largamente interpretado nesta questão por Broca, coaduna-se perfeitamente com a doutrina contrária – o poligenismo.

Além de tudo, o fato alegado não tem por si grande valor. Desvia-se perfeitamente o golpe, advertindo que jamais foi o homem considerado um filho, um descendente dos antropomorfos. É apenas considerado um parente colateral mais ou menos afastado. Se não é filho, igualmente não é irmão; é um primo em segundo ou terceiro grau. Sua existência num ponto qualquer não implicaria necessariamente a aparição da parentela colateral.  Acresce igualmente que o animal que Darwin supõe ter sido o progenitor imediato do homem, não foi ainda encontrado em parte alguma da Terra, nem mesmo em estado fóssil. Esta relevante lacuna dá-se em todo o mundo e não apenas n’América. A conseqüência, pois, tirada contra este continente é precipitada.

O outro argumento, desenvolvido pelo Professor Henrique Fischer, de Friburgo, e levianamente adotado pelo fantasista Barbosa Rodrigues, foi vitoriosamente batido por A. W. Meyer, mineralogista em Dresde. A doutrina fischeriana consiste em dizer que, não havendo na América jazidas nativas de nefrite e jadeíte, e encontrando-se objetos manufaturados dessas duas pedras no Mundo Novo, era concludente admitir que tinham sido trazidos pelos primitivos colonizadores asiáticos. Meyer combate com rigor tais conclusões e indica jazidas nativas daqueles materiais na Europa, na Oceania, na própria América, e não apenas na Ásia, contra a opinião de seu colega de Friburgo.

Deixem-se as teorias aventurosas e estudem-se os americanos como um produto do continente.

O Abade Hervás classificara em quatro grandes troncos as raças da América do Sul: – Araucânios, Guaranis, Quéchuas e Caribes. – A. d’Orbigny, em três: Ando-Peruvianos, Pampianos e Brasí1io-Guaranis. Batista Caetano, aventando a idéia de uma redução, parece todavia conformar-se provisoriamente com a divisão de d’Orbigny. Os índios do Brasil constituíam o grupo dosBrasílio-Guaranis, chamados igualmente Tupis, ou simplesmente Guaranis. Havia, porém, algumas tribos que foram por Martius tiradas do grande tronco: Guaicurus, Jês, GucKs, e outras. Batista Caetano supõe. haver aqui exagero.

“É embalde, diz ele, que se pretende multiplicar a divisão das tribos americanas sem motivo plausível, nem base, quer nos caracteres etnográficos, quer na linguagem. A uniformidade do tipo americano permanece e subsiste em confronto com os outros tipos, e as diferenças que apresentam entre si os diversos povos são apenas variedades, e não são maiores que as que apresentam povos da mesma família indo-européia entre si, e ainda mais os variegados povos asiáticos. As simples condições geográficas, como o pensaram Humboldt e Alcide d’Orbigny, são suficientes para determinar as diferenças que se supõem consideráveis, e que bem examinadas não no são efetivamente; as simples condições geográficas, quando nada mais importem, acarretam diferença no modo de viver e nos costumes, que paulatinamente influem na organização e na índole da população. Pouco mais de três séculos têm decorrido desde a descoberta das terras de Santa Cruz, e entretanto o luso-americano do Pará ou do Ceará já se diferença bastante do luso-americano da montanhosa província de Minas ou das terras proporcionalmente frias do Rio Grande do Sul.”

Dou como certa a hipótese do autoctonismo das raças americanas e aceito como provável a classificação de d’Orbigny, quanto às nações da América Meridional. No que toca aos índios do Brasil, acompanho a Batista Caetano nas reduções que faz às classificações de Martius.

Qual era, porém, o estado intelectual e moral dos índios do Brasil? É preciso considerá-los quanto às suas indústrias, suas crenças religiosas, suas idéias políticas e sociais.

Estavam os indígenas brasileiros quase todos no período da pedra polida, idade que se segue à da pedra lascada e é seguida pela dos metais. O Dr. Couto de Magalhães supõe que no Brasil não se encontram vestígios de utensílios e armas da idade da pedra lascada. Acredita que os nossos índios passaram por esta fase em alguma outra região, e, quando imigrados para o Brasil, achavam-se na idade superior.

Sabe-se que as diferentes raças não passam pelos mesmos estádios da inteligência ao mesmo tempo; hoje, na fase da indústria e da ciência européia, ainda há povos que empregam a pedra lascada, ou um pouco menos.

Pelo estudo geológico, porém, é certo ser bastante raro o caso de encontrar-se a pedra polida fora dos terrenos recentes. A ser exato o que pensa o Dr. Couto de Magalhães, seria forçada a conclusão de que o homem terciário e o quaternário não existiram no Brasil, o que fere de frente as descobertas do Dr. Lund. Se, como pensava este sábio, o Brasil desde a época dopós-plioceno e mesmo a datar da do plioceno era habitado, desde que a espécie humana existe sobre a Terra, ela existiu no Brasil.

Deveria ter aqui atravessado todas as fases de seu desenvolvimento, deveria ter usado da pedra lascada. Se esta não tem sido encontrada, é que os estudos neste sentido não têm, por certo, sido bem dirigidos.

Investigações bem acertadas poderão resolver o problema. Uma folha do Rio Grande do Sul publicou estas palavras que dão testemunho do homem geológico no Brasil e igualmente da pedra lascada: “Carlos de Koseritz ganhou do dr. Rösch dois crânios antiqüíssimos, que o ilustre engenheiro achou num sambaqui da província do Paraná e cuja antigüidade remonta a milhares de anos. São documentos interessantíssimos do homo americanus em sua forma primitiva. “A extraordinária espessura dos crânios, que atinge de 1 centímetro a 1 ½, as proporções do'ngulo facial, a extraordinária depressão nas têmporas, que de lado a lado não passam da distância de 10 centímetros, a imensa robustez e grossura das mandíbulas, o pronunciado prognatismo, tudo enfim prova que aí temos restos autênticos do homem pré-histórico brasileiro, o que aliás confirmam armas de pedra lascada, ou mal polida, assim como um dente de animal não classificado, mas evidentemente de raça extinta, que foram achados juntos aos crânios.” Achados destes poder-se-ão repetir quando estudos vastos forem iniciados, e então as pedras lascadas hão de aparecer, ao lado do homem contemporâneo do megatério. Carlos de Koserítz, meu bom e saudoso amigo, em seus Subsídios etnológicos, descreve muitos objetos de pedras lascadas pertencentes à sua coleção americana.

“O dr. Lund, dizem Zaborowski e Moindron, explorou mais de oitocentas cavernas, e numa delas encontrou ossadas de trinta indivíduos da espécie humana, no mesmo grau de decomposição dos ossos dos animais fósseis que as acompanhavam.

“Era impossível não concluir daí ser o homem contemporâneo do megatério, cuja idade na América do Sul equivale à do mamute na Europa.”

Os sábios europeus, tendo em alta conta os trabalhos de Lund, tiraram deles as conclusões que o distinto dinamarquês só limitadamente se atreveu a tirar. Não só o homem geológico existiu no Brasil, como foi deste país que partiu uma das primeiras provas de tão notável verdade científica.

Quanto às armas de pedra que os nossos índios usavam, delas sabemos desde o tempo de Ivo d’Evreux, que nos não diz se da lascada ou da polida. “Lá para o lado do oeste havia uma nação, de que nunca se falou, desconhecida por todos os Tupinambás, moradora nos matos na distância de mais de 400 ou 500 léguas da ilha, sem conhecer a vantagem dos machados e das foices, pois apenas se serviam dos machados de pedra, e assim viviam, etc.”

Por este falar do bom padre, dir-se-ia que aquilo era um fato singular e que os Tupinambás conheciam as foices e machados de ferro. Devemos observar, porém, que o a capuchinho assim se expressava em 1614, e os povos com quem lidou, havia muitos anos, andavam em contato com os europeus. Sílices lascados foram achados em Mercedes, perto de Buenos Aires, segundo Joly. O que mais interessa consignar é que o tupi-guarani, tendo passado da pedra lascada, já empregava a polida.

A razão não milita igualmente do lado do autor do Selvagem, quando dá o índio por completo agricultor, sem ter sido pastor. Quando se diz que um povo é pastor ou e agricultor, não se quer dizer que ele não conheça um ou outro uso da indústria próxima; dá-se-lhe o nome da indústria predominante. Os nossos índios, segundo o testemunho de antigos e modernos, viviam e vivem ainda quase exclusivamente da caça e da pesca; eram um povo caçador. Podemos ler todo um volume de Gabriel Soares, ou de Ivo d’Evreux, mui pouco se nos depara sobre a agricultura dos selvagens. Da caça e da pesca encontram-se muitos esclarecimentos.

Como poderia, além de tudo, o guarani ter sido noutras paragens pastor, e não trazer consigo os seus animais domésticos para a nova pátria? O período pastoril constitui uma fase importantíssima na vida dos povos; cria proventos que não mais se perdem; a passagem para um estádio superior não importa o esquecimento das aptidões adquiridas. Se nosso selvagem tivesse domesticado alhures animais, tê-los-ia trazido ao Brasil.

Os índios eram nômades, caçadores; estavam no grau de atraso do homem geológico; dificilmente podiam ter sido agricultores. As tribos ainda hoje em estado puramente selvagem não têm outra agricultura, além do cultivo da mandioca em diminuta escala e ainda menos do milho talvez. Só algumas tribos sedentárias do litoral elaboraram-se mais neste sentido, especialmente os extintos Tamoios.

Além das armas e instrumentos de pedra, além de suas indústrias de caça e pesca, e do conhecimento de uma ou outra planta, possuíam nossos indígenas uma arte cerâmica ainda na infância. Talhas, panelas, púcaros e igaçabas constituíam-na.

Sob o ponto de vista religioso o caboclo tem sido diversamente apreciado. Ivo d’Evreux, noutros pontos bem-inestabelecido, assim se exprime: “Estes selvagens sempre chamaram a Deus Tupã, nome que dão ao trovão, à maneira do que se pratica entre os homens, isto é, terem as obras-primas o nome do autor. Note-se, porém, que este nome no singular não se aplica aos relâmpagos e trovões, que rebentam e iluminam todas as partes, por cima da cabeça dos selvagens, aterrando-os, porque sabem e reconhecem que eles são estabelecidos pela poderosa mão d’Aquele que habita nos Céus. Por intermédio do intérprete informei-me dos velhos do país se eles acreditavam que este Tupã, autor do trovão, era homem como eles. Responderam-me que não, porque, se fosse um homem como nós, seria um grande senhor, e como poderia ele correr tão depressa, do oriente para o ocidente, quando troveja ao mesmo tempo sobre nós e nas quatro partes do mundo, tanto em França, como sobre nós? Demais se fosse homem, era necessário que outro homem o fizesse, porque todo homem procede de outro homem. Ainda mais: Jeroparié o criado de Deus, e nós não o vemos, ao passo que todo o homem se vê, e por isso não pensamos que Tupã seja um homem. “Mas, repliquei eu: que pensais que ele seja? Não sabemos, responderam; porém pensamos que existe em toda parte, e que fez tudo quanto existe. Nossos feiticeiros ainda não falaram com ele; pois apenas falam com os companheiros de Jeropari. “Eis a crença de Deus, sempre pela natureza impressa nos espíritos dos selvagens, que contudo não o reconheciam por meio de preces e de suplícios. Acreditavam naturalmente nos espíritos bons e maus. Chamam os bons espíritos ou anjos – Apoiauené, e os maus ou diabos – Uoiupia. Vou contar-vos o que pude colher de suas conversas por diversas vezes.

“Pensam que os anjos lhes trazem chuva em tempo próprio, que não fazem mal às suas roças, que não os castigam, nem os atormentam, que sobem ao Céu para contar a Deus o que se passa aqui na Terra, que não causam medo nem à noite, nem nos bosques, que acompanham e protegem os franceses. Pensam que os diabos estão sob o domínio de Jeropari, que era criado de Deus, e que por suas maldades Deus o desprezou, não querendo mais vê-lo, nem aos seus, pelo que aborrecia os homens e nada valia; que os diabos impedem a vinda das chuvas em tempo próprio, que os trazem em guerra com seus inimigos, que os maltratam, e lhes fazem medo, habitando ordinariamente em aldeias abandonadas, especialmente em lugares onde têm sido sepultados os corpos de seus parentes.” Dificilmente se poderia encontrar um mais completo espécimen de superfetação religiosa.

Eis aí um capítulo inteiro de teologia católica superposto às crenças dos Tupis. Ali está o Deus, todo-poderoso, incompreensível, imenso, onisciente, presente em toda a parte, criador do Céu e da Terra; ali aparecem os anjos, e igualmente os demônios comSatã à frente. A ingenuidade do Padre Ivo, porém, traiu-se quando disse que o Deus do índio era o tupã, e que tupã é trovão, e quando asseverou que o selvagem não lhe prestava nenhum culto!... Adestrado, o padre previne a objeção tirada da palavra empregada no singular ou no plural.

O estudo do regímen mental de uma raça não se determina senão à vista do complexo de suas crenças e de suas idéias. Na ordem das armas e dos utensílios o índio estava na idade de pedra; na esfera das indústrias era caçador; nas idéias religiosas estava no período do teologismo puro, no segundo momento do fetichismo: a astrolatria. Não podia ser monoteísta. Também não era politeísta, como parece ensinar o Dr. Couto de Magalhães, quando lhe empresta uma mitologia de Anhangá, Curupira, Jeropari, Caapora, Saci-Pererê, Boitatá, Urutau, Rudá, Uirapuru, Boiaçu, etc., com Tupã à frente.

Em 1874 tive ensejo de combater o celebrado etnólogo neste ponto e escrevi estas palavras: “Os selvagens de nosso país estavam no grau de atraso do homem geológico, o homem da idade de pedra. Não podiam ter uma religião que reconhecesse umSer Supremo. O contrário é desdenhar ou desconhecer os achados da crítica moderna, que assinala os diferentes períodos das formações das mitologias, das religiões e da poesia. Umas tribos desgarradas pelos desertos e matas, e outras reunidas em paupérrimas palhoças, sem indústria assinalável, usando da pedra para utensílios, como o homem das cavernas, sem tradições, sem heróis, sem história, não podiam possuir a noção do Ser Supremo, como não podiam ter uma verdadeira poesia. Estavam pouco além da época de puro naturalismo, em que o terror faz crer que as nuvens, os trovões (tupã), as tempestades, são seres ferozes que se devem respeitar. A grei cabocla, encarada por todas as faces por que pode ser pela ciência, à luz de idéias sãs e longe do influxo de caducos prejuízos, achava-se em um dos mais remotos degraus da escala da civilização. Caçador, ainda hoje no seu descendente, nem sequer o índio estava além daquela segunda fase do período fetíchico, a idade da astrolatria, de que fala Augusto Comte. Prova-o o seu culto do Sol e da Lua, Guaraci Jaci, ainda um pouco indeciso, é verdade. É lícito dizer que já havia passado a época do mais flutuante naturalismo. Demonstra-o o complexo de sua intuição do mundo, acorde com o dos povos ainda no mesmo estado, um dos mais recônditos da pré-história, onde é dado penetrar.

“Não cumpre só dizer, como fez o Dr. Couto de Magalhães, que o selvagem não era monoteísta; é mister mostrar o que ele foi. É claro que não era ainda politeísta, como talvez suponha o ilustre indianólogo.”

Tive grande prazer de ver confirmadas por um homem competente, o Sr. José Veríssimo, tais idéias aventadas, há alguns anos, e que não deixaram de ocasionar estranheza a mais de um leitor.

Agora o estado social e político do brasílio-guarani. Existem guias antigos e modernos. Entre estes Couto de Magalhães assinala vários tipos da família, variando do exclusivismo rigoroso dos Guatós e Xambioás, até o comunismo das mulheres dos Caiapós. “O comunismo das mulheres entre estes , diz o autor do Selvagem, consiste nisso: a mulher desde que atinge a idade em que lhe é permitido entrar em relação como homem, concebe daquele que lhe apraz. No período da gestação a amamentação é sustentada pelo pai do menino, o qual pode exercer igual cargo para com outras, que durante períodos idênticos vivem na mesma cabana. Desde que a mulher começa a trabalhar é livre de conceber do mesmo homem, ou pode procurar outro, passando para este o encargo da sustentação da prole anterior.

“Notarei que entre os selvagens o menino começa a cuidar da própria subsistência desde os dez anos, sendo contudo auxiliado pelos parentes até que baste a si mesmo”.

Segundo este autor, os Guatós e os Xambioás, sem serem monógamos, são o mais exagerado tipo dos direitos do homem sobre a mulher. Nessas tribos as mulheres não têm licença nem de olhar para um homem estranho; são recatadíssimas. Entre osXambioás existe a casta anômala e torpe dos homens destinados a viri-viduarum; são indivíduos que em mais nada se ocupam e são sustentados pela tribo. As adúlteras são queimadas vivas. O matrimônio precoce é impedido com as maiores cautelas. O casamento é aos vinte e cinco anos de idade, ou mais usualente aos trinta. A virgindade no homem é, quase sempre, mantida até essa época. Entre os testemunhos antigos destaca-se o do venerando Ivo d´Evreux. Não é possível extratar aqui o infinito número de noções que se me deparam na obra do padre francês.

Limito-me a rápidas indicações. Ivo d´Evreux consigna entre os índios do Maranhão a antropofagia, a entrega das filhas e parentes aos hóspedes, a punição do adultério, a escravidão, o uso constante de guerras, danças, música, o uso de fumar, de bebidas fermentadas, pinturas e incisões no corpo, o hábito de ajudarem-se no trabalho, formando o que hoje chamamosputirão. Tinham os chefes ou maiorais, que ordinariamente eram os mais distintos na guerra.

Do notável clássico ouçamos um belo trecho, que pinta bem ao vivo o caráter e o espírito do selvagem: “Indaguei e procurei saber muito o modo como se preparavam para a guerra, não me contentando só com as comunicações. Em primeiro lugar as mulheres e suas filhas preparam a farinha de munição, e em abundância, por saberem naturalmente que um soldado bem nutrido vale por dois, que a fome é a coisa mais perigosa num exército, por transformar os mais valentes em covardes e fracos, os quais, em vez de atacar o inimigo, buscam meios de viver.

“É diferente da usual esta farinha de munição, por ser mais bem cozida e misturada com carimã para durar mais tempo; embora menos saborosa, porém mais sã e fresca. Em segundo lugar empregam-se os homens em fazer canoas ou consertar as que já possuem próprias para este fim, porque é necessário que sejam compridas e largas para levarem muitas pessoas, suas armas e provisões, e contudo são feitas de uma árvore, cortada bem perto da raiz, sem galhos e ramos, ficando apenas o tronco bem direito em toda a sua extensão, e então tiram-lhe a casca e racham-na, dando-lhe meio pé de largura e profundidade: neste caso lançam-lhe fogo nessa fenda por meio de cavacos bem secos e vão queimando pouco a pouco o interior do tronco; raspam com uma chapa de aço e assim vão fazendo até que o tronco esteja todo cavado, deixando apenas duas polegadas de espessura, e depois com alavancas dão-lhe forma e largura. Estas canoas conduzem às vezes 200 ou 300 pessoas com as suas competentes munições.

“São conduzidas por mancebos fortes e robustos, escolhidos de propósito, por meio de remos de pás, de três pés cada um, que cortam as águas a pique e não de travessia. Em terceiro lugar preparam as suas penas de cores vermelhas, amarelas, verde-gaio e violetas, que prendem aos cabelos com uma espécie de cola ou grude.

“Enfeitam a testa com grandes penas de araras e outros pássaros semelhantes, de cores variadas, e dispostas à maneira de mitra, que amarram atrás da cabeça.

“Nos braços atam braceletes igualmente de penas de diversas cores, tecidos com fio de algodão, semelhante à mitra de que acabamos de falar.

“Nos rins usam de uma roda de penas de cauda de ema, presas por fios de algodão, tintos de vermelho, cruzando-se pelos ombros à maneira de suspensórios, de sorte que, ao vê-los emplumados, dir-se-ia que são emas que têm penas nestas três partes do corpo. Quis saber por intermédio do meu intérprete por que traziam sobre os rins estas penas de emas: responderam-me que seus pais lhes deixaram este costume, para ensinar-lhes como deviam proceder na guerra, imitando a ema, pois ela quando se sente mais forte ataca atrevidamente o seu perseguidor, e quando mais fraca abre as suas asas, despede o vôo e arremessa com os pés areia e pedras sobre seus inimigos; assim devemos fazer, acrescentaram eles.

“Estou certo de que muitas pessoas se admirarão, não só do que acabo de dizer, mas igualmente como é possível buscarem estes selvagens meios de governarem-se entre a prática dos animais... Estes selvagens imitam com a maior perfeição possível os pássaros e animais do seu país, os quais eles exaltam nos cantos que recitam em suas festas. Porque nos pássaros de sua terra predominam as cores verde-gaio, vermelha e amarela, eles gostam de panos e vestidos destas três cores. Porque as onças e os javalis são os animais mais ferozes do mundo, eles arrancam os seus dentes, e os trazem nos lábios e orelhas a fim de parecerem mais terríveis. As penas das armas são postas nas extremidades dos arcos e flechas. Assim e preparados, bebem publicamente o vinho de muai, e dizem, adeus aos que ficam.”

Pelo que se acaba de ler, bem se pode aferir que o autor fala de tribos, que já tinham dos europeus aprendido o uso do aço e do ferro, e que possuíam uma tal ou qual agricultura, consistente na manipulação de sua planta sagrada – a mandioca. A indústria predominante era, no entanto, a dos povos caçadores. O Padre Ivo d’Evreux escrevia mais de um século depois da descoberta; esta circunstância não deve ser esquecida.

Nem todas as tribos indígenas, além disso, tinham um igual desenvolvimento intelectual; é lícito admitir uma certa gradação por este lado. Resta-me falar dos povos negros que entraram em nossa população. Eram quase todos do grupo banto. São gentes ainda no período do fetichismo, brutais, submissas e robustas, as mais próprias para os árduos trabalhos de nossa lavoura rudimentar. O negro é adaptável ao meio americano; é suscetível de aprender; não tem as desconfianças do índio; pode viver ao lado do branco, aliar-se a ele. Temos hoje muitos pretos que sabem ler e escrever; alguns estabelecidos em Direito, Medicina, ou Engenharia; alguns comerciantes e ricos; outros jornalistas e oradores. Ao negro devemos muito mais do que ao índio; ele entra em larga parte em todas as manifestações de nossa atividade. Cruzou muito mais com o branco.

O mestiço é o produto fisiológico, étnico e histórico do Brasil; é a forma nova de nossa diferenciação nacional.

Nossa psicologia popular é um produto desse estado inicial. Não quero dizer que constituiremos uma nação de mulatos; pois que a forma branca vai prevalecendo e prevalecerá; quero dizer apenas que o europeu aliou-se aqui a outras raças, e desta união saiu o genuíno brasileiro, aquele que não se confunde mais com o português e sobre o qual repousa o nosso futuro.

Durante muitos e muitos anos reinou o vulgar preconceito sobre a imensa inteligência e a enorme robustez das populações cruzadas. Supunha-se que as gentes mestiçadas dispunham de vantagens excepcionais e maravilhosas.

A observação das populações das colônias européias da América e da Oceania mostrou haver engano naquelas afirmativas gratuitas. Apareceu então uma tremenda reação e chegou-se ao ponto de proclamar a completa hibridação das gentes cruzadas, isto é, sua fraqueza e esterilidade radical no fim de um certo número de gerações.

Um estudo porém mais despreocupado desta questão provou não existir na humanidade o fenômeno característico do hibridismo. Ou se considere a humanidade um gênero dividido em diversas espécies, ou uma espécie dividida em diferentes variedades, é sempre certo que estas coabitam entre si e produzem uma descendência fecunda, ainda que não tão válida como a das raças-mães.

 

Sobre a questão étnica entre nós, minhas observações levam-me às conclusões seguintes:

1ª – O povo brasileiro não equivale a uma raça determinada e única;

2ª – É um povo que representa uma fusão; é um povo mestiçado;

3ª – Pouco adianta por enquanto discutir se isto é um bem ou um mal; é um fato e basta;

4ª – A palavra mestiçagem aqui não exprime apenas os produtos diretos do branco e do negro e do índio; expressa em sentido lato todas as fusões das raças humanas e em todos os graus no Brasil, compreendendo igualmente as dos diversos ramos da raça branca entre si;

5ª – Esta característica é verdadeira no presente e no futuro, quer predomine sempre a atual mescla índio-áfrico-portuguesa, quer venham a predominar, mais ou menos remotamente, os elementos italiano e germânico, trazidos por uma colonização até hoje mal dirigida e pior localizada;

6ª – O elemento branco tende em todo o caso a predominar com a internação e o desaparecimento progressivo do índio, com a extinção do tráfico dos africanos e com a imigração européia, que promete continuar;

7ª – Comparando-se o Norte e o Sul do país, nota-se já um certo desequilíbrio, que vai tendo conseqüências econômicas e políticas: ao passo que o Norte tem sido erroneamente afastado da imigração, vai esta superabundando no Sul, introduzindo os novos elementos, fato que vai cavando entre as duas grandes regiões do país um valo profundo, já de si preparado pela diferença dos climas;

8ª – O meio de trazer o equilíbrio seria distribuir a colonização regularmente e cuidadosamente por todas as zonas do país, facilitando às nossas populações a assimilação desses novos elementos;

9ª – Se o não fizerem, as três províncias do extremo Sul terão, em futuro não muito remoto, um tão grande excedente de população germânica, válida e poderosa, que a sua independência será inevitável;

10ª – Como quer que seja e em todo o caso, a população do Brasil será sempre o resultado da fusão de diversas camadas étnicas.

 

Título: Historia da Literatura Brasileira : 1500-1830
Autor: Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero
Informações sobre o documento
Descrição: Ano referente à segunda edição.
Tipo: Obra Literária
Gênero: Crítica, teoria e história literárias
Local: Garnier, Rio de Janeiro
Ano de edição: 1902
Idioma: Português

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