Os fatores de degradação da biosfera... *

Estabilidade dinâmica da biosfera. Conceituação O homem, ao estabelecer-se na biosfera, passou a modificar as leis naturais que mantinham a sua estabilidade [19]. A espécie humana atual, que não conta ainda um milhão de anos, já alterou bastante a composição da biosfera, que levou aproximadamente três bilhões de anos para ser formada. Isso acontece, sobretudo, pela ilimitada capacidade que tem o ser humano de construir ambientes para si próprio, dentro e até mesmo fora da biosfera [20]. [19] A estabilidade da biosfera não significa a manutenção de características fixas quanto a sua composição, mas sim de uma estabilidade dinâmica. A biosfera sempre evoluiu e continua evoluindo, através de modificações sucessivas de climas, composição física e química e, conseqüentemente, de tipos de seres vivos nela existentes. Porém, em condições naturais, essas modificações se dão de forma equilibrada, tanto no sentido da manutenção dos fluxos de energia quanto de materiais. Assim, exemplificativamente, todas as vezes em que houve modificações ambientais que determinaram alterações no tipo e na quantidade de organismos produtores, essas modificações foram acompanhadas de alterações equivalentes entre os consumidores, de maneira a manter estáveis as condições de trocas de energia e matéria na biosfera. [20] Atualmente, o homem já conseguiu viver, por algum tempo pelo menos, até mesmo na Lua e nos espaços interplanetários, criando uma "biosfera" favorável dentro da espaçonave ou de seu macacão de astronauta. Isso fez dele a única espécie viva capaz de manter-se independentemente das condições naturais reinantes na biosfera. Condicionamento do ambiente Alguns outros animais possuem certa capacidade de criar ambientes mais favoráveis ao seu desenvolvimento conseguindo, dessa forma, viver em condições mais estáveis, mesmo quando o ambiente externo sofre variações devidas a intempéries ou à mudança das estações, mas essa capacidade é sempre bastante limitada. E o caso, exemplificativamente, das abelhas, das formigas e outros insetos sociais, capazes de construir abrigos, armazenar alimentos, proteger a prole e, até mesmo, manter uma temperatura mais ou menos constante no interior de suas moradias. Um outro exemplo é o castor que corta ramos e troncos de árvores, edificando barragens em rios de modo a formar lagos. Mas a abelha é obrigada a construir sua colméia nas proximidades de plantas com flores, pois ela não é capaz de semeá-las e cultivá-las e os castores necessitam troncos de árvores, pois não são capazes de substituí-los por pedras ou tijolos. Quanto ao homem, não existem limites à sua capacidade criativa. Ele é um ser industrioso por excelência, ou seja, tem habilidade para elaborar métodos e soluções próprias para todos os problemas, não dependendo, portanto, de condições da própria natureza [21]. [21] Já vimos como a biosfera se caracteriza por um constante movimento de energia, o qual, por sua vez, depende da existência de uma seqüência de organismos com adaptações especiais para utilizar a energia existente em suas várias maneiras. Assim, somente certos tipos de animais estão adaptados a se alimentar, isto é, obter a energia condensada nas flores de certas árvores; da mesma forma, esses animais somente poderão ser utilizados como alimento por organismos adaptados à sua captura e à digestão dos compostos de que eles são estabelecidos. O homem, pelo contrário, não se submete a tais estruturas tróficas. Ele é capaz de sintetizar e transformar compostos orgànicos artificialmente e, assim, obter energia de qualquer fonte orgânica. Além disso, o homem é capaz de aumentar a produção de alimentos, através do preparo da terra, adubação, plantio e irrigação, combate às pragas, criação de animais, etc. Desde que o homem descobriu a maneira de produzir o fogo, ele começou a introduzir grandes alterações na biosfera. Por meio do fogo, o homem incendeia florestas, destruindo árvores e reduzindo a produção de compostos orgânicos, afugentando animais selvagens e criando desertos; produz grande quantidade de fumaça que altera a composição da atmosfera. Todas as espécies vivas estão sujeitas a um controle do crescimento populacional. Por um lado, porque o alimento que cada espécie é capaz de utilizar existe em quantidade limitada na biosfera e, por outro lado, porque cada tipo de organismo está sujeito a ser perseguido e destruído por uma outra espécie que o utiliza como alimento. Esse processo de um alimentar-se do outro, chama-se predação. Os animais predadores, ao contrário do que se pensa, são úteis porque evitam o crescimento excessivo da população de uma outra espécie. Se não fossem as cobras, exemplificativamente, os ratos se elaborariam em muito maior quantidade, consu¬mindo excessivamente as fontes primárias de alimentos. Se não fossem as aranhas, os insetos ocasionariam prejuízos muito maiores.   [caption id="attachment_40836" align="aligncenter" width="300" caption="Animais predadores, como as aranhas ou as serpentes são úteis como controladores do crescimento das populações de insetos e roedores." > [/caption] Além dos predadores, há igualmente, os organismos patogênicos ou causadores de doenças que, em determinadas condições, podem limitar o crescimento das populações. E há, igualmente, as intempéries, as modificações bruscas de temperatura, as grandes secas, os invernos rigorosos, a neve, as inundações, etc., cada um deles destruindo, periodicamente, grande número de vegetais e de animais e impedindo, assim, a superpopulação que levaria a um desequilíbrio entre os diversos tipos de seres vivos que ocupam a biosfera [22]. [22] Suponhamos que em um campo muito fértil e muito extenso exista uma plantação de cenouras, produzindo grande quantidade continuamente. Na mesma área há um grande número de coelhos, alimentando-se dessas cenouras e, igualmente, um certo número de serpentes venenosas que costumam caçar os coelhos. Como essas serpentes são perigosas, passamos a destruí-las sistematicamente. O resultado disso, será um aumento muito rápido da população de coelhos que acabará por exterminar a plantação de cenouras, morrendo em seguida, eles próprios por falta de alimento. Trata-se, pois, de um desequilíbrio ecológico causado pelo combate a um animal predador. O ser humano constitui uma única exceção e essa regra do controle biológico do crescimento populacional. Em primeiro lugar, porque ele é capaz de aumentar a produção de alimentos, seja fertilizando o solo para que este produza maior quantidade por área, seja por meio de a transformação química de compostos, sintetizando alimentos. Essa sua capacidade é que vem, até hoje, desafiando o princípio das populações de Malthus, que já foi comentado em capítulo anterior. Em segundo lugar, não existem, na natureza, predadores que consigam, sistematicamente, perseguir e "caçar" o homem, pois ele é o maior predador existente em toda a biosfera, sendo capaz de defender-se eficientemente de seus mais ferozes inimigos. Além disso, ele vem conseguindo, cada vez mais, vencer os patogênicos responsáveis pelas doenças que, em outros tempos, destruíam grande números de seres humanos. Finalmente, sua capacidade inventiva lhe permite superar as intempéries, abrigando-se das modificações de temperatura, irrigando as terras áridas, transportando alimentos conservados das regiões mais produtivas para as menos produtivas, retificando rios para evitar inundações ou deslocando-se, rapidamente, de uma para outra região do Globo à procura de ambientes mais favoráveis. Atividades humanas e desequilíbrios na biosfera Todas essas atividades do homem concorrem, entretanto, para a modificação das características da biosfera. Primeiro, há modificações que o homem pratica intencionalmente, a fim de obter benefícios. Em segundo lugar, há alterações imprevisíveis que ocorrem como conseqüência secundária das modificações intencionais. Entre as primeiras podem ser citadas, exemplificativamente, as derrubadas de matas para formação de pastagens e áreas de cultivo, ou para obtenção de madeira. Ao fazer isso, o homem está intencionalmente modificando uma parte da biosfera, com o propósito de obter maior produção de alimentos. Ao construir uma barragem interceptando um grande rio e formando um enorme lago, com a finalidade de regularizar o rio (evitando grandes cheias e grandes secas) obter energia hidrelétrica, obter água potável em quantidade uniforme durante todo o ano, irrigar uma área de terra que antes era árida e improdutiva, etc., o homem está, igualmente, modificando intencionalmente alguns aspectos da biosfera. As conseqüências imprevistas são, logicamente, as mais desastrosas. Por exemplo, alguns tipos de solo (como a maior parte do solo amazônico) uma vez despidos da sua exuberante vegetação natural, somente permanecem férteis, produzindo boas pastagens e plantações, por um espaço de três ou quatro anos. Depois, transformam-se em desertos estéreis. [caption id="attachment_40837" align="aligncenter" width="210" caption="A construção de barragens constitui modificação intencional do ecossistema." > [/caption] A construção de grandes represas, em alguns tipos de rios (como no rio Nilo, na África) retém grande quantidade de fertilizantes naturais impedindo que estes sigam o curso natural do rio e fertilizem extensos territórios ou impede a migração normal de peixes de grande valor comercial. [caption id="attachment_40838" align="aligncenter" width="300" caption="Uma localidade é um exemplo de ambiente artificial." > [/caption] [caption id="attachment_40839" align="aligncenter" width="300" caption="A Floresta é um ambiente natural." > [/caption] As indústrias, desenvolvidas com o propósito de aumentar a produção de bens de consumo, lançam à atmosfera grandes quantidades de gases (alguns dos quais podem ser tóxicos), além de poeiras que prejudicam o desenvolvimento de vegetais e a própria saúde das pessoas. Além disso, lançam ao solo e às águas resíduos sólidos e líquidos, responsáveis por grandes alterações da estrutura e da composição desses ambientes. A própria aplicação de inseticidas e outros compostos químicos de uso agrícola pode afetar gravemente a composição da biosfera. Noção de meio ambiente O conjunto de condições que afetam a existência, desenvolvimento e bem-estar dos seres vivos, é denominado meio ambiente. Não se trata, pois, apenas de um lugar no espaço, mas de todas as condições físicas, químicas e biológicas que favorecem ou desfavorecem o desenvolvimento. Não é a mesma coisa que biosfera, porque podemos considerar meios ambientes particulares, enquanto que a biosfera é uma só. Ambientes naturais e ambientes artificiais. Podemos, ainda, distinguir ambientes naturais de ambientes artificiais, Os primeiros são os que não sofreram a intervenção do homem. Em geral, são ambientes estáveis, no sentido de que possuem populações de espécies vegetais e animais, herbívoras, predadoras e decompositoras vivendo em perfeito equilíbrio. O ambiente artificial é aquele que foi modificado pelo homem, geralmente com o propósito de favorecer o desenvolvimento de uma ou de poucas espécies em particular. É o caso das áreas cultivadas, em que se procura obter as condições de solo, umidade, etc., mais favoráveis ao desenvolvimento de certas plantas. As plantas concorrentes passam a ser sistematicamente combatidas, como "ervas daninhas" e os herbívoros, consumidores naturais daquelas plantas, igualmente passam a ser destruídos como "pragas da lavoura". Dessa forma, desaparece todo equilíbrio natural entre vegetais, animais herbívoros, predadores e decompositores. A tendência do homem civilizado é, em geral, a de procurar elaborar um ambiente artificial inteiramente voltado para seu próprio e exclusivo desenvolvimento. Nesse ambiente somente têm lugar os seres vivos considerados úteis, seja para alimentação seja para outras finalidades do homem. Aqueles que não têm utilidade (ou cuja utilidade é desconhecida) são sistematicamente destruídos. Essa tendência tem trazido graves inconvenientes para a composição da biosfera, principalmente com relação à manutenção do equilíbrio entre espécies, pois muitos dos seres combatidos pelo homem têm funções relevantes nesses equilíbrios. Resumo • A biosfera se caracteriza por uma estabilidade dinâmica e não estática. • A espécie humana difere das demais, essencialmente pela sua capacidade de modificar as condições ambientais no sentido de criar ambientes favoráveis à sua existência e conforto. • Alguns animais possuem certa capacidade de condicionar seu ambiente, mas essa capacidade é muito restrita, dévendo conformar-se às condições ecológicas gerais. • Graças à capacidade do homem de modificar as condições ambientais, ele introduz modificações estruturais e de composição, prejudicando a estabilidade da biosfera. • As populações naturais de seres vivos estão sujeitas a limitações de crescimento, principalmente pela ação dos predadores que desenvolvem, assim, um relevante papel no equilíbrio ecológico. • O ser humano constitui a única exceção à regra de controle biológico das populações. Ele é predador de todas as outras espécies e consegue aumentar a produção primária de alimentos. • Muitas são as conseqüências imprevistas desse modo particular de ação do homem sobre a biosfera. Entre elas, a criação de desertos, a erosão, a poluição, os fenômenos de superpopulação de algumas espécies, etc. • Denomina-se meio ambiente ao conjunto de condições que afetam a existência, desenvolvimento e bem-estar dos seres vivos. • Ambientes naturais são os que não sofreram a interferência do homem, ao contrário dos chamados ambientes artificiais.   Fonte: Branco, Samuel Murgel. Ecologia para 2º grau. São Paulo, CETESB, 1978.

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